A ONÇA E O BODE
A ONÇA E O BODE
O bode entrou pelo mato
Pra procurar um lugar
Para fazer sua casa
Pois não tinha onde morar,
Achou um sítio espaçoso
E resolveu se apossar.
Roçou o mato e se foi
Pra voltar no outro dia.
A onça que já tivera
A mesma ideia e vadia
Que era vendo o terreno
Limpo, pulou de alegria.
Cortou as madeiras pondo-as
No ponto pra construção,
O bode encontra os paus,
Ergue a casa, bate o chão,
A onça tapa de taipa.
Está pronta a habitação.
Sai para buscar seus móveis
E encontra o bode instalado
Na volta. Porém, cientes
Que os dois tinham trabalhado
Na construção morar juntos
Foi, pelos dois, acordado.
Viviam desconfiados,
Um do outro. Cada um
Teria uma semana
Para caçar, sem zunzum.
A onça vai e um cabrito
Trás para seu desjejum.
Fica o bode apavorado!
Quando sua vez chegou,
Viu uma onça abatida
Por caçadores, levou
Para casa e no terreiro
A mesma depositou.
A onça fica espantada
Vendo a companheira morta
Pergunta ao bode: - Compadre
Diga-me, se não se importa,
Como matou essa onça?
E ele, de cabeça torta:
- Ora, ora... Foi matando!
Responde de empáfia, cheio.
Mas, como a Onça insistisse,
Vê-se o Bode no aperreio
E continua mentindo
Já com um pouco de receio.
- Eu enfiei este anel
No meu dedo e lhe apontei
O dedo, ela caiu morta.
Porque foi isso eu não sei.
A Onça se arrepiou.
Pensa o Bode: Dominei!
- Amiga Onça, eu lhe aponto
O dedo... A Onça pulou
Pra longe dele, gritando,
Porque se apavorou:
- Amigo Bode, não brinque!
Mostrando que não gostou.
Tornou o Bode a dizer
Que lhe apontaria o dedo,
Já no meio do terreiro
A Onça pulou com medo.
Repete o Bode a ameaça
E ela entra no arvoredo.
Desembestou mato adentro
Numa carreira danada
Perseguida pela voz
Do Bode que, em velada
Ameaça, lhe dizia
Com sua voz empastada:
- Amiga Onça, eu lhe aponto
O dedo... Sarcasticamente.
A Onça não mais voltou.
E o Bode vive contente,
Sozinho, papo pro ar
No seu lar a descansar
Até o tempo presente.
Rosa Regis
cordelizando
Câmara Cascudo
Natal/RN –
13.10.2015 - 01h38min.
Em: Contos tradicionais do Brasil
(folclore), Luís da Câmara Cascudo,
Rio de Janeiro, Edições de Ouro: 1967
—–
Este conto foi
arrebanhado por Câmara
Cascudo do volume de J
da Silva Campos,
Contos e fábulas
populares da Bahia,
em Folk-Lore no Brasil, Ed. Basílio
de Magalhães, Rio de Janeiro, 1928.

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