ERA UMA VEZ DOIS CORCUNDAS
(Reescrevendo OS COMPADRES CORCUNDAS e
Outros Contos Brasileiros, de CÂMARA CASCUDO,
da Coleção LEITURAS FORA DE SÉRIE)


Era uma vez dois corcundas
Um pobrezinho, outro rico.
O pobre sempre mangado
E o rico nenhum tico.

O pobre era caçador
Como a caça rareava,
Além de triste faminto
Vez por outra ele ficava.

Certa feita adormeceu
Atocaiando um veado
Acordando noite alta
Dolorido e assustado.

Tornou a acomodar-se
No jirau, se espreguiçando,
Quando uma cantiga ao longe,
Bem longe... viu-se escutando.

Era um coro de vozes.
Pareceu-lhe muita gente
Cantando ao mesmo tempo!
Pensou ele de repente:

“Deve ser uma desmancha
De farinha aqui por perto!”
E sem pensar em mais nada
Botou-se a caminho aberto.

Andando rumo à cantiga
Que não descontinuava.
E ao mais andar o canto
Já dele se aproximava.

Foi avistando um serrote
E nele uma grande laje
Em cima um povo cantando
Parecia uma visagem.

Era uma gente esquisita
Vestida de diamantes
Em grande roda a cantar
O que ele ouvira antes.

Velhos, rapazes, meninas,
A cantar e a dançar
Tão somente um mesmo verso
Sem nada modificar.

O brilho dos diamantes...
Aquela repetição
De versos, o povo estranho...
Dá-lhe medo e comoção.

“Segunda, terça-feira
          vai, vem!
Segunda, terça-feira
          vai, vem!”


Apavorado, com medo,
Com o corpo todo a tremer
E as pernas a fraquejar,
Buscou logo se esconder.

Numa moita de mofumbos,
Assistindo a cantoria
Que era sempre a mesma coisa,
Com medo o pobre tremia.

À medida que o tempo
Ia passando, acalmou.
E aproveitando a toada
Daquele povo, cantou:

  “Segunda, terça-feira
     vai, vem!
   E quarta e quinta-feira
    meu bem!”

Boca para que disseste!
Emudeceu todo mundo!
Ali em busca do intruso
Puseram-se num segundo.

Como ribaçãs no voo
Espalham-se a procurar
O corcunda a quem o medo
O faz se denunciar.

Qual batalhão de formigas
Uma barata levando,
Carregam o caçador
Que, de medo, vai chorando.
Largaram-no sobre a laje...
Logo em seguida um velhão
Brilhando como um sacrário
Pergunta de sopetão:

- Quem cantou o verso novo
Da cantiga foi você?
O corcunda: - Sim senhor!
Fui eu mesmo, sim! Por que?

E o velhão: - Quer vender?
O corcunda: - Não, senhor!
Não o vendo eu ofereço
De presente, Seu Doutor!

- É que eu gostei do seu baile
Que estava muito animado!
E todos acharam graça
Com o corcunda espevitado.

- Pois bem - Lhe disse o velhão –
Uma mão à outra lava!
Em troca você irá
Sem a corcunda pra casa.

Vou tirar sua corcunda
 E esse povo lhe dará
Um bisaco bem novinho
Que nunca se rasgará.

E o velho passando a mão
Nas costas do caçador,
Tirou-lhe toda a corcunda
Sem que ele sentisse dor.
Esbelto como um rapaz
Ainda ganha o presente,
Um bisaco encomendado
Para abrir ao sol nascente.

Foi-se embora o caçador!
E assim que o sol nasceu
O novo bisaco abriu.
O que viu o entonteceu.

Muitas pedras preciosas
E moedas de ouro puro.
Pensou meu Deus estou rico!
Eu que só vivia duro!

Quase morre de contente!
No outro dia comprou
Uma casa confortável
E a mesma mobiliou.

Calçados e roupa nova
Comprou e bem se vestiu.
Foi à missa, era domingo,
E lá seu compadre viu.

O seu compadre corcunda
Que era rico! Este ao ver
Como seu compadre estava
Quis logo tudo saber.

O pobre contou-lhe então
Como tudo aconteceu.
E o rico cuja medida
Do ter não enche correu
Para casa, e alguns dias
Pensando no que fazer
Passou, e naquele mato,
Resolveu: - vou-me meter.

No dia azado largou-se
Para o mato. E tanto fez
Que quando ouviu a cantiga
Disse: agora é minha vez!

Botou-se na direção
Da toada. Lá chegando
Viu o tal povo esquisito
Dançando em roda e cantando:

   “Segunda e terça-feira
            vai, vem!
    Quarta e quinta-feira
            meu bem!”

O rico não se contendo
Foi chegando e já abrindo
O par de queixos berrando!
Pensando que era bem vindo.

    “Sexta, Sábado e domingo!
                 Também?

Houve um silêncio profundo
E aquele povo esquisito
Voou para cima dele,
Que logo pensou: tô frito!


Levaram-no para a laje
Onde já estava o velhão
Que lhe gritou, furioso,
Quando o puseram no chão:

- Quem foi que o mandou meter-se
Onde sequer foi chamado?!
Seu metido duma figa!
Seu corcunda abestalhado!

Você não sabe que a gente
Que é encantada, bobão,
Nada quer com a Sexta-feira,
Com o Sábado e o Domingo, não?

Na Sexta o Filho de Deus
Foi morto crucificado.
O Sábado é o dia que
Foi-se o filho do pecado.

O Domingo, seu boboca,
É o dia que ressurgiu
Aquele que nunca morre
E que para o Céu subiu.

Se não o sabia fique
Sabendo!  E pra seu desdouro
Vai apanhar uma surra
Para lhe esquentar o couro.

E para nunca esquecer
A lição tu vais levar
Além da tua corcunda
A outra pra equilibrar.

Enquanto o velhão falava
O rico, aos empurrões,
Ia saindo dali
Aos tapas e beliscões.

Passando a mão no seu peito
O velhão ali deixou
A corcunda que lá ficara
Quando do pobre a tirou.

Aos chutes e pontapés
Foi dali escorraçado
Com manchas roxas no corpo
Dolorido e machucado.

Assim o resto da vida
Mesmo rico ele viveu
Como um corcunda duplo.
E isso ele mereceu.

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Uma lição nos deixou
A história aqui contada
Mostrando-nos que a cobiça
Não leva o homem a nada
Mas, ao contrário, produz
Sofrimentos e o conduz
A uma vida malfadada.



Rosa Regis
Natal/RN – Nos idos de Dois Mil e alguma coisa 
(entre 2913 e 2015)

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